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História Clínica do Câncer
Como foi dito anteriormente, não existem sinais ou sintomas os
quais possam, de uma maneira segura, nos conduzir para o diagnóstico
de câncer. Entretanto, costumamos considerar alguns sinais como sendo
clássicos para que se pense com muito cuidado na possibilidade de
Câncer, os quais podem ser descritos como:
Modificação de hábito Intestinal ou Urinário:
O tumor, ao longo de seu crescimento, pode modificar a histologia normal
de um determinado tecido, provocando, assim, perda ou alteração
de função. Uma situação que pode ser usada
como exemplo é uma massa que cresça e modifique a histo-fisiologia
normal do cólon distal. Como sabe-se, esta região do cólon
é responsável por grande parte da reabsorção
de líquidos para o organismo, de modo que uma modificação
em sua estrutura normal acaba gerando perda ou exacerbação
de suas funções, o que pode ser percebido por episódios
de diarréia crônica ou constipação, dependendo
da situação. Um tumor em cólon proximal, responsável
pela absorção de muitos nutrientes essenciais, como vitaminas
e Ferro, por exemplo. Desse modo, com a absorção prejudicada,
é comum de ocorrer anemia ferropriva, que pode manifestar-se clinicamente
por fraqueza, anorexia, geofagia, etc. Podemos também perceber alterações
urinárias, notavelmente de caráter obstrutivo. É comum,
por exemplo, a verificação, em tumores de próstata,
de hesitação, gotejamento, nictúria, polaciúria,
urgência urinária, disúria e alteração
de jato urinário.
Uma dor que não se cura: O crescimento de um tumor pode,
por pura e simples ação mecânica, comprimir estruturas
e estimular terminações nervosas que conduzam informações
álgicas aos centros nervosos superiores. Como a dor não se
caracteriza por ser parte de um processo inflamatório, o uso de
medicamentos comuns para a dor, como antiinflamatórios a analgésicos
não opióides não surte nenhum efeito no sentido de
aliviar a dor.
Um Sangramento ou Descarga Anormal: à medida que um tumor
cresce, este vai agregando uma série de partículas consigo,
modificando, com o passar do tempo, o microambiente celular do tecido no
qual se encontra. Além disso, vai modificando sua própria
estrutura celular interna, adquirindo uma vasta gama de “habilidades” que
permitem que ele se torne cada vez mais resistente às defesas do
organismo no intuito de combatê-lo. Dessa maneira, o tumor consegue
agregar plaquetas, criar uma vascularização própria
e crescer de maneira independente do organismo, como se fosse, literalmente,
um parasita. Entretanto, todos esses processos que são capazes de
serem gerados pelo câncer não ocorrem de maneira organizada
e linear, de tal maneira que, por exemplo, a vascularização
no centro do tumor vai tornando-se, com a evolução de seu
crescimento, muito deficitária. Isso ocorre pelo fato de que a angiogênese
tumoral não acompanha a mesma velocidade de crescimento do tumor
em si. Sendo assim, múltiplos focos de necrose costumam ocorrer
no interior do tumor, o que acaba por ativar a cascata de coagulação,
o que pode ocorrer em muitos pontos do organismo, evidenciando uma situação
semelhante ao que chamamos de Coagulação Intravascular Disseminada,
a qual termina por consumir fatores de coagulação em excesso.
A conseqüência de todo esse processo, logicamente, culmina em
uma deficiência em fatores de coagulação, levando o
indivíduo a uma maior possibilidade de desenvolver sangramentos.
Além dessa situação, a lesão intrínseca
de estruturas, ocasionada em virtude do desenvolvimento tumoral, pode,
por si só, levar a situação de evento hemorrágico.
Espessamento ou Nódulo em Mama ou Outro Local :
o espessamento de pele que ocorre na região de um tumor pode
ser decorrente de alterações tróficas da pele e tecido
celular subcutâneo causados por motivo de presença do tumor
subjacente. Da mesma, maneira, o aparecimento de nódulos mamários
ou em outros tecidos pode ser indicativo de disseminação
linfática do tumor, bem como a percepção, em níveis
mais superficiais, da massa tumoral em si. No caso de estarmos lidando
com disseminação linfática, temos de saber, no momento
do diagnóstico qual a correta diferenciação entre
o que é um nódulo inflamatório e o que é mais
indicativo de ser conseqüência de um tumor. Os gânglios
de uma reação inflamatória costumam ser móveis,
mais sensíveis ao toque e dolorosos. Quando trata-se de um gânglio
tumoral, em razão de seu crescimento lento, normalmente não
há dor à palpação, pelo menos até o
momento em que o tumor atingir a cápsula do gânglio. Outra
característica do gânglio tumoral é que nele há
fibrose tal que permite a sua aderência a estruturas vizinhas, impedindo
que o gânglio possua mobilidade. Entretanto é necessário
que se atente para o fato de que os gânglios presentes em linfomas
possuem grande mobilidade, mas não devem se confundidos com os de
característica inflamatória pelo fato de que possuem consistência
bastante característica, podendo ser descrita como “borrachóide”.
Alguns gânglios que aparecem em situações especiais
devem ser lembrados, como, por exemplo, os Gânglios Satélites
de Virshow, que costumam ocorrer na região supra-clavicular esquerda,
sendo indicativos de lesões neoplásicas abaixo do diafragma.
Indigestão ou Dificuldade para Deglutir: esses sintomas
são mais comuns em tumores do trato gastrintestinal superior, como
esôfago e estômago. Ocorrem devido à diminuição
do volume útil do estômago pelo crescimento tumoral ou pela
diminuição da luz esofágica. O paciente pode referir
disfagia, plenitude pós-prandial, refluxo gastroesofágico,
etc.
Alterações Óbvias em Verrugas ou Lesões
de Pele: Com as modificações estruturais inerentes ao
processo carcinogênico, é possível a percepção
de modificações da arquitetura física normal de lesões
de pele. Deve-se atentar para a investigação de ocorrência
ou não de : Assimetria, Bordas irregulares, Cores com variantes
de tonalidade, Dimensões aumentadas e Evolução da
lesão. É o que costumamos chamar de “O ABCDE das lesões
de pele”.
Tosse ou Rouquidão Persistente: Tumores que crescem em
ápice pulmonar, por exemplo, podem comprimir os nervos laríngeos
e provocar alterações de tônus na musculatura laríngea,
as quais podem ser percebidas clinicamente como rouquidão persistente,
sem que haja qualquer sinal inflamatório. Da mesma maneira, uma
massa pode estar crescendo na altura da traquéia e gerando uma irritação
no local, provocando, assim o estímulo para a tosse. Não
podemos esquecer, também, que uma massa tumoral que obstrua a luz
de um brônquio, pode não manifestar sinais clínicos
iniciais, mas acaba por gerar episódio de pneumonia obstrutiva,
devido ao acúmulo de secreções na área pulmonar
suprida por esse brônquio, o que permite proliferação
bacteriana.
Emagrecimento Inexplicável: como já foi explicado
anteriormente, o câncer se desenvolve de maneira autônoma em
relação ao organismo de seu hospedeiro. Sendo assim, necessita
de nutrientes para seu desenvolvimento, que deveriam estar sendo
utilizados para o metabolismo orgânico normal. Ao longo do crescimento
tumoral, o que ocorre é um desvio do metabolismo em direção
ao tumor, prejudicando as funções metabólicas energéticas
necessárias à vida do indivíduo. Somando-se a isso,
existe, como já foi relatado, a possibilidade de o tumor agir de
tal maneira que interfira diretamente na absorção de nutrientes
essenciais, legando ao organismo um déficit nutricional de considerável
importância. À medida que o tumor avança, pode-se evoluir
para um estágio de emagrecimento máximo, extremamente grave,
chamado de Caquexia do Câncer. |