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De:
Campanha Livre de Transgenicos <livredetransgenicos@aspta.org.br>
Data: Sex Ago 1, 2003 5:50
pm
Assunto: [Boletimtransgenicos] BOLETIM 170 - POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
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POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
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Número 170 - 01 de agosto de 2003
Car@s Amig@s,
A CTNBio tem isenção científica? Há algo de podre no reino transgênico...
O Presidente Lula e seu braço direito, o Ministro José Dirceu, têm repetido
que a questão dos transgênicos vai ser decidida segundo uma “avaliação
científica” de suas vantagens (ou desvantagens) e riscos (ou segurança)
para o meio ambiente e para a saúde humana. Dado este princípio, cabe-nos
perguntar como podemos avaliar a avaliação científica.
Onde encontrar a famosa neutralidade científica, quando a pesquisa em todo
o mundo é cada vez mais controlada pelos recursos das empresas? A filosofia
do estado mínimo vem levando a um recuo nítido da pesquisa pública e uma
cada vez maior subordinação da mesma aos financiamentos privados a título
de parcerias de “interesse público” mas de patenteamento privado. Por outro
lado, o poder político das megaempresas transnacionais freqüentemente
entorta a ação do Estado no sentido do interesse das mesmas.
Exemplos abundam demonstrando esta realidade. A liberação dos transgênicos
nos EUA, em 1992, foi o resultado de uma decisão política do governo
Reagan, que dobrou as posições de vários cientistas do Food and Drug
Administration (FDA). Eles alertavam para a necessidade de mais pesquisas
para poder avaliar os riscos. Os pesquisadores que se opuseram à liberação
foram calados por decisão hierárquica no FDA e suas posições só foram
conhecidas porque uma ONG americana de defesa dos consumidores entrou na
justiça exigindo que fossem divulgados os documentos do debate interno
daquela instituição. Enquadrando o FDA, o governo Reagan nomeou um advogado
do escritório de defesa dos interesses da Monsanto para dirigir o órgão. É
sempre bom recordar que o FDA decidia sobre a liberação dos transgênicos
desta (e de outras) empresa.
Outra recordação pertinente. Recentemente, a Academia de Ciências da França
tomou posição a favor dos transgênicos, mas ficou demonstrado que o relator
da resolução foi por muito tempo diretor de uma unidade de pesquisa
co-financiada pela multinacional Aventis. Vários outros membros do grupo
eram ligados à indústria de sementes (transgênicas) e outros eram
defensores dos transgênicos. Com um grupo de estudos deste tipo o resultado
só podia ser um apoio à transgenia.
No caso do Brasil, vemos um exemplo aberrante na composição atual da
Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), criada no governo FHC.
Os cientistas escolhidos para participar da mesma primaram por uma defesa
intransigente da liberação dos transgênicos e por um ataque obstinado a
todos os que apontaram para a necessidade de estudos de impacto no meio
ambiente e na saúde dos consumidores antes destas liberações. São
especialistas em engenharia genética com interesses nesta liberação e
deviam ser impedidos de decidir em causa própria.
Da CTNBio deveriam participar especialistas em biossegurança. É para isto
que foi criada a comissão. Mas, na verdade, a Comissão tem se comportado
como um órgão de defesa e de promoção da transgenia. Se era para aceitar as
pesquisas das empresas como “prova” de que os transgênicos não fazem mal à
saúde humana e ao meio ambiente, e impedir qualquer pesquisa que possa
desmentir esta assertiva, não era preciso criar uma comissão de biossegurança.
Por outro lado, a CTNBio toma decisões por maioria nas suas resoluções, um
processo que não podia ser mais anti-científico. Especialistas com
formações tão diferentes como meio ambiente, saúde humana, saúde animal e
plantas não têm condições de decidir se um ou outro dentre eles tem ou não
razão no seu campo do conhecimento. Além disso, dentro de cada um destes
campos há variadas especializações e nem todas representadas na comissão. O
representante da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), do
Ministério da Saúde, por exemplo, pode ser um profundo conhecedor de
toxicologia, mas dificilmente dominará também as áreas de epidemiologia,
alergenia, etc.
É por esta razão que amplos setores da sociedade civil organizada defendem
que os transgênicos passem por estudos rigorosos de avaliação de riscos
para a saúde humana e para o meio ambiente antes da sua liberação. Os
organismos que estão aparelhados para fazer este tipo de avaliação são o
IBAMA e a ANVISA, onde diferentes tipos de especialistas podem ser
mobilizados. As empresas e a própria CTNBio não querem estes estudos.
Quando a Justiça aceitou o recurso do Greenpeace, do IDEC e do Ministério
Público, na ação que os três movem no sentido de exigir EIA-Rima para OGMs,
e exigiu que os estudos fossem feitos, a Monsanto e o governo FHC
preferiram recorrer da decisão em vez de apresentá-los.
Vamos para cinco anos desta decisão e até agora a empresa se recusa a
provar a segurança de seus produtos. Não há melhor prova de que há “algo de
podre” no reino dos transgênicos.
O governo Lula, infelizmente, não está entendendo a gravidade da decisão
que deve tomar, ao mandar para o Congresso um Projeto de Lei regulamentando
os transgênicos no Brasil. A Casa Civil está organizando rápidas consultas
a vários setores da sociedade mas breves três debates realizados estão
muito longe de poder aclarar quem tem razão na matéria.
Cada debatedor apresentou seus argumentos e parece que cada um falou de um
planeta distinto, tal a disparidade das afirmações. Como vai decidir o
governo sobre a veracidade e confiabilidade de cada um? A decisão tende,
neste baixo nível de aprofundamento, a ser tomada com base nas crenças e
ideologias dos responsáveis governamentais e não em qualquer “isenção
científica”. Este debate - apressado e pressionado pelo lobby da Monsanto,
de seus aliados das organizações de agricultores do Rio Grande do Sul (eles
estão mesmo iludidos sobre as vantagens desta tecnologia) e pela bancada
ruralista na Câmara de Deputados - é uma verdadeira temeridade. Mais ainda
por se tratar de um debate a portas fechadas em que o público não interfere
e sequer sabe as eventuais conseqüências das decisões que podem ser tomadas.
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Neste número:
1. Eliane Moreira deixa a CTNBio
2. 92% dos americanos querem a rotulagem dos transgênicos
3. Japão manterá volume importado de soja
4. Na China, cidadã processa Nestlé
5. Segurança Alimentar contra produtos transgênicos
Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a
agricultura
Agroindústria ecológica
Eventos
Palestra “Crise Agrícola, crise alimentar e crise geral contemporânea”
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1. Eliane Moreira deixa a CTNBio
A gente sente...
...o Brasil está diferente: o governo muda pela terceira vez em seis meses
a secretária-executiva da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, do
Ministério de Ciência e Tecnologia.
Eliane Moreira, professora de Direito Ambiental da UFPA, sai hoje: é
competente e rigorosa demais para o cargo.
O Dia, Coluna do Cláudio Humberto, 30/07/03.
2. 92% dos americanos querem a rotulagem dos transgênicos
Em Junho de 2001, pesquisa de opinião realizada pela ABC News mostrou que
93% dos americanos queriam a rotulagem dos transgênicos. Ontem, uma nova
pesquisa mostrou que 92% dos americanos continuam querendo a rotulagem dos
transgênicos.
A porcentagem dos consumidores que pensam que os transgênicas são inseguros
caiu ligeiramente nos últimos dois anos de 52 para 46%. E a percentagem dos
que pensam que são seguros passou de 35 para 46%.
Estas mudanças não são surpresa, considerando que a indústria de
biotecnologia tem gasto aproximadamente 50 milhões de dólares por ano na
promoção dos alimentos transgênicos. Eles estão constantemente tentando
passar a mensagem de que “não há evidência de que os transgênicos são
inseguros”.
A verdade é que não há prova de que os transgênicos são seguros já que
estudos sobre a alimentação humana com transgênicos não foram conduzidos”.(...)
(..) logo ninguém pode atestar sua segurança ou não. (...)
O que se pode dizer com certeza, baseados nas pesquisas de opinião, é que a
vasta maioria dos americanos quer que os alimentos transgênicos sejam
rotulados e já é hora do governo nos dar este direito!.(...)
www.abcnews.com, 15/07/2003
3. Japão manterá volume importado de soja
O Japão deverá manter suas importações de soja em 5 milhões de toneladas
neste ano, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
(USDA). O relatório, datado de 25 de julho, foi divulgado somente ontem no
website da agência americana.
Os EUA são os maiores fornecedores de soja para o país, com 3,82 milhões de
toneladas, seguidos pelo Brasil, com 800 mil toneladas. Em 1999, Brasil e
Canadá empreenderam esforços para conquistar o mercado japonês, refratário
às lavouras de soja geneticamente modificadas. As compras dos EUA chegaram
a cair 7% no ano seguinte.
Foi então que os produtores rurais desenvolveram o sistema de Preservação
de Identidade (PI), no qual conseguem garantir que a carga não contém grãos
transgênicos. O sistema de Preservação de Identidade prevê o acompanhamento
de todo o crescimento da planta, de forma a assegurar sua origem.
Com o sistema, os compradores japoneses recuperaram a confiança no grão
norte-americano e as importações dos EUA voltaram a seus níveis históricos
ao longo dos anos de 2001 e 2003. Em 2003, as compras devem se manter
estáveis em 3,8 milhões de toneladas.
Em 2001, o governo japonês passou a exigir que os alimentos à base de grãos
geneticamente modificados fossem rotulados. A exigência abrange alimentos
para consumo humano, como o tofu e os sucos à base de leite de soja. (...)
Gazeta Mercantil, 31/07/03.
4. Na China, cidadã processa Nestlé
Uma moradora de Xangai está processando a Nestlé Shangai por não declarar
no rótulo do achocolatado Nesquik se o produto contém ou não ingredientes
geneticamente modificados. Em sua queixa, Zhu Yanling alegou que soube pela
internet e os jornais que o Nesquik contém ingredientes transgênicos e pede
que a Justiça obrigue a Nestlé a fornecer informação adequada sobre o
produto, além de uma indenização de 13,60 yuans (US$ 8,28), ou duas vezes o
valor que pagou, no dia 27 de março, pelo produto, informou o jornal
Shanghai Daily. Em dezembro de 2002, o Ministério da Agricultura da China
publicou uma lista de produtos que deveriam ser etiquetados como
transgênicos, mas nela não se incluía o Nesquik, acrescentou o jornal.
Gazeta Mercantil,29/07/03.
5. Segurança Alimentar contra produtos transgênicos
Nos dias 20 a 23 de julho aconteceu em São Paulo o IV Encontro Nacional do
Fórum de Segurança Alimentar e Nutricional. O evento contou com a
participação de 160 pessoas representantes de diversas entidades ligadas a
nutrição, agricultura, meio ambiente, direito e etc.
Ao término do fórum foi elaborada declaração final identificando uma série
de ações que permitam possibilitar de fato a segurança alimentar e
nutricional do povo brasileiro. Entre estas, destaca-se um ponto que faz
menção aos transgênicos:
(...) No atual contexto, queremos destacar a importância de que o país
assuma de forma corajosa a decisão contra a liberação dos produtos
transgênicos para cultivo comercial em larga escala e consumo da população,
reafirmando o princípio da precaução. Este posicionamento deve basear-se na
existência de grandes incertezas na comunidade científica internacional e
brasileira em relação aos riscos que estes produtos representam para o meio
ambiente, a saúde dos consumidores, a autonomia dos agricultores familiares
e a economia nacional. (...)
Para maiores informações sobre o fórum e a declaração final
http://www.ibase.br/pubibase/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=375&sid=112
Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a
agricultura
Agroindústria ecológica
O beneficiamento dos produtos agrícolas é uma das melhores formas de
agregar renda à propriedade e uma excelente alternativa para os pequenos
agricultores. Unir essa idéia à da produção ecológica significa mercado
garantido.
Partindo deste princípio, sete famílias de Barra do Rio Azul, no Alto
Uruguai - RS, inauguraram uma agroindústria coletiva de açúcar mascavo, que
tem capacidade para produzir até 90 toneladas de açúcar por ano. Elas
pertencem à Associação de Agricultores Familiares Agroecológicos de Campo
Alegre.
Com recursos obtidos junto a Cáritas, Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor
(CAPA) e Banco do Brasil, montaram o negócio. A matéria-prima veio de nove
hectares de cana-de-açúcar.
Na primeira safra, produziram 7,3 mil quilos de açúcar, produtividade baixa
em decorrência da seca e de uma forte geada. O produto foi todo vendido e
levou os agricultores a pensarem na ampliação do negócio. Este ano,
produzirão 11 hectares, estimando a produção em 30 mil quilos de açúcar.
Paulo Trierveiler, gerente do escritório regional da EMATER/RS do Alto
Uruguai, diz que a atividade está elevando a renda das famílias, que não
pretendem ficar só no açúcar mascavo, mas produzir outros derivados da
cana, numa segunda etapa do projeto. Eles continuam produzindo leite, milho
e feijão, atividades tradicionais das propriedades.
Para iniciar o projeto, a Associação teve apoio do CAPA, EMATER/RS,
Cáritas, Prefeitura, Cooperativa Central do Alto Uruguai (COCEL), Sindicato
dos Trabalhadores Rurais de Aratiba, Cooperativa de Produção Agropecuária
Aratiba (COPAAL) e Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais.
Além da agroindústria de açúcar mascavo, agricultores ecológicos do RS
produzem geléias, doces, compotas, conservas, sucos, leite, queijo e pães,
comercializados em feiras.
Emater/RS: Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, v. 1, n. 2,
abr/jun. 2000.
Eventos
Palestra “Crise Agrícola, crise alimentar e crise geral contemporânea”
Marcel Louis Mazoyer é pesquisador do Instituto Nacional Agronômico Paris
Grignon (INA-PG) e um dos maiores especialistas internacionais em história
agrária e desenvolvimento agrário. Conduziu um vasto programa de pesquisa
em sistemas agrários ao longo das décadas de 80 e 90. Seu livro, “Histoire
dês Agriculteurs du Monde” (A História das Agriculturas do Mundo),
publicado em 1997, é uma referência obrigatória para quem se interessa
sobre a agricultura, sobre as questões agrárias, agrícola e alimentar.
A palestra estará parcialmente fundamentada no texto do professor Mazoyer,
intitulado “Defendendo o campesinato num contexto de globalização”, que
poderá ser obtido na página da internet do NEAD (www.nead.org.br)
Data: 07/08/03, quinta-feira às 14horas.
Local: Praça Pio X, nº 7 - 11º andar Auditório da Universidade Cândido Mendes
Organização: Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e
Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ),
Assessoria e Serviços à Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA),
Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (NEAD) e Ministério do
Desenvolvimento Agrário MDA.
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Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos
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