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De:
Campanha Transgenicos <campanhatransg@uol.com.br>
Data: Seg Out 8, 2001 5:09
pm
Assunto: ERRATA: Fórum Soberania Alimentar
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ATENÇÃO!
O texto "O papel dos transgênicos e da agroecologia para a
soberania alimentar: alguns pontos para reflexão" circulou com
algumas incorreções. Por favor, solicitamos desconsiderar a versão
anterior e considerar a que segue no corpo desta mensagem.
Palestra proferida por Jean Marc von der Weid no Fórum Mundial
sobre Soberania Alimentar (Havana, Cuba - 3 a 7 de setembro de
2001):
O papel dos transgênicos e da
agroecologia para a soberania alimentar:
alguns pontos para reflexão
A hipotética escassez de alimentos
No ano de 1996 foi realizada a Cúpula Mundial da Alimentação. Nessa
ocasião não se falou em transgênicos. Nem a favor, nem contra. Cinco anos
depois, os transgênicos estão no centro da problemática sobre segurança
alimentar. A propaganda das indústrias transnacionais, dos governos do
Norte e do Sul e das organizações multilaterais, como o PNUD (Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento), apresenta as plantas
transgênicas como solução para o problema da fome. A proposta de
resolução da FAO (Organização para a Alimentação e a Agricultura / ONU,
na sigla em inglês) para novembro próximo também não toca no tema dos
transgênicos, concentrando-se em apelar para maiores investimentos
nacionais e internacionais na agricultura.
Por outro lado, o diagnóstico da fome e da má nutrição mundial aponta
para a pobreza e para o não-acesso a recursos produtivos como a causa da
existência de 800 milhões de famintos e dos 2,4 bilhões de mal nutridos.
Está claro que não falta alimento. Com a produção atual de alimentos,
cada pessoa no mundo poderia comer todos os dias: 1,7 kg de cereais,
feijões e nozes; 200 g de carne, leite e ovos; e 0,5 kg de frutas e
vegetais.
A marginalização de 1,35 bilhões de agricultores e suas famílias é a
principal causa da fome e da má nutrição. Para estes, como para muitos
pobres urbanos, não há alternativas de renda e emprego e, portanto,
investir em aumentos de produção no primeiro mundo ou investir nas
empresas rurais e latifúndios do terceiro mundo não resolve o problema. A
idéia de que os miseráveis do campo acabarão encontrando seu lugar na
economia urbana e que, neste sentido, um mundo sem agricultores é o
futuro inevitável e até desejável, é falsa e catastrófica. A presente
hipertrofia dos centros urbanos é insustentável econômica, social e
ecologicamente.
A estratégia das empresas de biotecnologia
Os transgênicos não têm por objetivo acabar com a fome, mas sim
aumentar o megafaturamento de algumas multinacionais. Para se ter uma
ordem de grandeza desse mercado, se o Brasil admitisse a soja transgênica
da Monsanto, esta empresa poderia abraçar um mercado de sementes e
herbicidas de 2 a 3 bilhões de dólares/ano.
Os transgênicos não aumentam a produtividade das lavouras. A eventual
diminuição do uso de inseticidas não tem se mantido nos cultivos
transgênicos e o uso de herbicidas nesses casos tem aumentado. Então por
que os agricultores americanos estão plantando transgênicos? Porque as
empresas de sementes adotaram a estratégia de esvaziar os mercados
americanos de sementes não-transgênicas e deixar os agricultores sem
opção.
Caso a Monsanto consiga impor sua lei no Brasil, 80% das sementes
“industriais” de milho passarão a ser transgênicas e todos os cultivos de
milho serão contaminados. Vinte e cinco por cento do milho nos EUA é
transgênico, mas 75% de todo o milho cultivado está contaminado. As
empresas transnacionais apostam em uma contaminação geral dos cultivos no
mundo, numa estratégia criminosa para impor seus interesses.
Os sistemas agroecológicos de produção
Os transgênicos não são necessários para aumentar a produção e a
qualidade dos alimentos. Os sistemas agroecológicos têm proporcionado
aumentos de produtividade por área de 93% (média) nas mais difíceis
condições ambientais e sociais (estudo de 89 casos em todo o mundo).
Estas não são micro-experiências com poucos agricultores e poucos
hectares de cultivo, mas sim grandes projetos de desenvolvimento
envolvendo milhões de pequenos agricultores.
Os aumentos de produtividade podem alcançar, de forma sustentável, até os
500% nos casos mais avançados, como no programa desenvolvido pela AS-PTA
(Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa) com
produção de feijão preto no Sul do Brasil. No caso do arroz, em
Madagascar, a produtividade saltou de 2 toneladas por hectare para 5, em
média, chegando a 15 nos melhores casos, sem uso de químicos. Já em Cuba,
a produtividade das hortas intensivas saltou de 1,6
kg/m2 para 19,6
kg/m2.
Para os agricultores familiares, a agroecologia é a solução técnica mais
apropriada e é algo que a grande propriedade não pode utilizar
integralmente. Até a chegada dos transgênicos lutávamos, agricultores e
ONGs, contra as políticas desfavoráveis e, apesar destas, conseguimos
avançar.
A Campanha “Por um Brasil Livre de Transgênicos”
A difusão de plantas transgênicas muda tudo, porque impõe riscos de
contaminação geral de todos os cultivos e pode inviabilizar a produção
agroecológica. Mais que isso, sem qualquer exagero terrorista, os
transgênicos podem, se mantidas suas características atuais, não só
inviabilizar a agroecologia, como também inviabilizar a própria
agricultura.
É por entender o dramático risco que enfrentamos que uma frente ampla de
organizações de agricultores, ONGs de apoio, organizações de
consumidores, de ambientalistas e de pesquisadores das ciências agrárias
e biológicas e da medicina e nutrição criaram a campanha “Por um Brasil
Livre de Transgênicos”.
Neste momento a produção e o consumo de transgênicos estão proibidos no
Brasil por uma decisão judicial baseada em ação promovida pela Campanha.
Mas as transnacionais que comandam o governo brasileiro estão fazendo
pressões desesperadas no Congresso para aprovar uma lei para liberar
estes produtos.
A contra-pressão popular será essencial para impedir que isto aconteça. A
Campanha conta sobretudo com a ação das organizações do campo CONTAG e
MST e religiosas, como a CNBB. Para isso, preparamos materiais
informativos que são distribuídos gratuitamente.
O apoio internacional para a campanha brasileira é chave para nosso
sucesso. O Brasil é o último território não-transgênico com peso no
mercado mundial. Se esta situação se alterar, será difícil conter a onda
transgênica que começa a perder força frente à crescente resistência dos
agricultores e consumidores europeus.
Jean Marc von der Weid
Coordenador do Programa de Políticas Públicas da AS-PTA
aspta@alternex.com.br
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