Brasil já usa sementes de soja transgênica
O jornal The New York Times publicou reportagem hoje dizendo que, apesar de proibidas, sementes são contrabandeadas da Argentina
São Paulo - O Brasil já está usando sementes geneticamente modificadas nos plantios de soja, o que ainda é oficialmente proibido. As sementes estariam sendo contrabandeadas da Argentina, segundo longa reportagem publicada hoje pelo jornal The New York Times. Sob o título "Supersementes tomam os principais mercados e o Brasil pode ser o próximo", o New York Times traz as estimativas do presidente para assuntos internacionais da Associação Americana de Soja, Dwain L. Ford, segundo o qual até 30% da soja no Brasil pode ser transgênica. O jornal afirma que o tema é tão delicado que o ministro da Agricultura, Marcus Vinicius Pratini de Moraes, só consentiu com uma entrevista por escrito. "A plantação comercial de soja geneticamente modificada não é permitida no Brasil", respondeu o ministro, acrescentando que os frequentes testes do governo confirmam que as plantações não têm organismos geneticamente modificados.
O agricultor Horald H. Dyer, de Iowa (EUA), que recentemente visitou o Brasil e a Argentina, disse, no entanto, ao jornal que viu no Brasil plantações de soja completamente livres de ervas daninhas, exatamente como as de suas fazendas no Iowa e Missouri, onde usa as supersementes. Outros especialistas em agricultura, tanto norte-americanos quanto brasileiros, suspeitam que as sementes modificadas estejam sendo contrabandeadas da Argentina, onde o uso de transgênicos é permitida e, no caso da soja, com cerca de 90% da safra sendo geneticamente alterada, a maior porcentagem do mundo. Neste caso, afirma o jornal, os agricultores sul-americanos estariam usando a nova tecnologia sem pagar por ela e sem necessariamente saber como controlá-la.
Falta controle
"Não há controles rígidos nas estradas ou nos armazens, portanto, ninguém sabe de fato quantas sementes foram contrabandeadas", diz ao jornal David Brew, parceiro da Brasoja Corretora de Cereais, de Porto Alegre. Dyer, de seu lado, afirma que, na Argentina, é permitido reaproveitar as sementes para a safra seguinte. Nos EUA, os agricultores têm de pagar a chamada tarifa tecnológica pelas sementes, que custam US$ 6,50 a mais por saca.
Segundo o New York Times, o Brasil, segundo maior produtor de soja , depois dos EUA, pode determinar o rumo dos transgênicos no mundo quando concluir o processo, em andamento, para decidir se legaliza a nova tecnologia. Se o Brasil rejeitar a biotecnologia, as companhias norte-americanas, já atingidas financeiramente pela rejeição na Europa, sofrerão um duro golpe. Em contrapartida, se o Brasil aderir, poderá ficar difícil para o consumidor encontrar no mundo alimento livre de organismo geneticamente modificado. Isso porque, diz o jornal, os EUA, o Brasil e a Argentina produzem 80% das 157 milhões de toneladas de soja - "safra versátil que é transformada em óleo, processada e adicionada a inúmeros alimentos". João Carlos Carvalho, presidente da Agropecuária Basso, companhia brasileira com licença para vender as sementes quando elas foram aprovadas, afirma que quando o Brasil começar a cultivar a soja transgênica "não haverá caminho de volta". O governo brasileiro havia aprovado o uso de sementes modificadas desenvolvidas pela Monsanto em 1998, mas a decisão foi suspensa por um tribunal federal após pedido de um grupo de defesa do consumidor. O porta-voz da Monsanto no Brasil, Delmiro Silva, disse ao New York Times que espera uma decisão a respeito este ano. Porém, Linda Thrane, porta-voz da Cargill, a maior trading de commodities dos EUA, disse que a empresa não assegura que 100% dos embarques de soja brasileira sejam de produto não-transgênico.
Regina Cardeal |