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De:  Maria Cristina Amaro Carneiro <cristinacarneiro@uol.com.br>
Data:  Sáb Nov 27, 1999  12:33 am
Assunto:  [gen-ocidio] Transgênicos - moratória ganha força


Sexta-feira, 26 de novembro de 1999 - O Estado de S. Paulo

Transgênicos - moratória ganha força

WASHINGTON NOVAES

Parece ser um "turning point" a notícia publicada na segunda-feira por
este jornal dando conta de que pesquisas
feitas na Universidade da Geórgia (EUA) demonstraram que soja geneticamente
modificada para resistir a um herbicida
não é indicada para climas quentes. Com calor intenso (45 a 50 graus Celsius
no solo), os talos se abrem e pode-se
prejudicar 40% do plantio - as perdas são na altura, no peso e na resistência
das plantas. Já que grande parte da safra
brasileira de soja provém dos Estados do Centro-Oeste e do Norte, que
costumam registrar altíssimas temperaturas,
essas conclusões parecem reforçar a conduta de cautela, que exige estudos de
impacto ambiental rigorosos em cada
ecossistema, antes de autorizar o plantio.

Esse plantio está suspenso por decisão da Justiça Federal. E um de seus
fundamentos é exatamente a ausência
de estudos específicos de impacto ambiental no Brasil. Todos os estudos que
fundamentaram a aprovação do plantio
pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) foram realizados em
outros países, principalmente nos
EUA, onde os ecossistemas, o clima, os solos, a microfauna do solo e outros
fatores são bastante diferentes. Foi essa
também - a inexistência desses estudos no País - uma das razões que levaram a
Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência a pedir moratória, um prazo mínimo para que se possa avaliar
melhor os riscos do plantio.

Outros pesquisadores - entre eles Avílio Franco, da Embrapa - haviam
alertado ainda para o fato de a soja no
Brasil ser cultivada sem adubação nitrogenada, graças à simbiose com
bactérias que usam nitrogênio do ar - processo
que permite ao País economizar US$ 1,8 bilhão/ano em fertilizantes. Seria
preciso estudar as variedades transgênicas
quanto à capacidade de nodulação e fixação do nitrogênio atmosférico.

Com todos esses fatores em jogo, será muito difícil continuar
sustentando a possibilidade e conveniência de
autorizar o plantio de variedades transgênicas de soja ou de outras espécies
sem que se façam os estudos de impacto
ambiental e outros. A própria CTNBio, aliás, ainda em outubro não liberou o
plantio de variedades transgênicas de
arroz e milho, por insuficiência de informações.

Se a reunião da Organização Mundial de Comércio (OMC), de fato, se
realizar nos próximos dias, é bastante
provável que se torne cenário de uma batalha envolvendo defensores e
adversários dos transgênicos - entre estes
últimos, organizações ambientalistas que têm obtido vitórias importantes
nesse tema em outros países, como
Greenpeace e Friends of Earth.

Uma das mais recentes é a decisão dos governos da União Européia (UE) de
exigir a rotulagem de qualquer
produto que contenha mais de 1% de transgênicos. Embora os ambientalistas
ainda considerem insatisfatório esse
índice, o valor simbólico e político da exigência é relevante. E ela se segue
à divulgação de relatório científico da
própria UE apontando o risco de variedades geneticamente modificadas para
resistir ao glifosato eliminarem insetos
benéficos às plantações - além do risco de linfomas para seres humanos (este
último contestado pelos produtores das
sementes, com base em dados da Organização Mundial de Saúde).

Tudo isso ocorre num momento em que a resistência européia e em outros
países às sementes geneticamente
modificadas está levando o Departamento de Agricultura e a Food and Drugs
Administration dos EUA a rever seus
padrões de exigência para liberação desses produtos. Assim como está levando
empresas produtoras a desacelerar
seus projetos de expansão dos plantios de alimentos transgênicos, tendo em
vista várias manifestações de grandes
produtoras de carnes de não utilizar os transgênicos ou pagar mais pelos
não-transgênicos. A nova postura dessas
empresas, por sua vez, é motivada pelos questionamentos que os consumidores
norte-americanos - até há pouco
quase indiferentes ao tema - passaram a levantar. E também pelo temor de
perder mercados na Europa e no Oriente,
onde se acirra a resistência.

Esse panorama tem gerado ainda forte pressão de acionistas de uma das
principais produtoras de sementes
transgênicas, a Monsanto, para que esta desmembre ou venda sua divisão de
agronegócios - se não a empresa toda,
como algumas notícias dizem que já está sendo negociado. A razão principal é
que a resistência crescente aos
transgênicos levou as ações da empresa (e de outras do setor) a ter seu valor
em bolsas reduzido em cerca de 20%
nos dez primeiros meses do ano, com uma perda na casa dos bilhões de dólares.
Os acionistas temem também que
prospere a ação organizada de escritórios de advocacia nos EUA, na Europa e
no Japão de processar a companhia
por danos ao meio ambiente e aos consumidores.

Tal quadro levou o jornal britânico The Observer a escrever, há poucos
dias, que "o primeiro round dessa
batalha, contra todas as expectativas, foi vencido pelos ambientalistas". E a
grande arma destes, segundo o jornal, foi a
Internet: a difusão de informações habilitou grupos e pessoas em todo o mundo
a discutir em profundidade uma
questão científica complexa. No Brasil, não foi muito diferente.

Resta ver como serão os próximos lances. E como se comportarão, diante
do novo cenário - que sugere
prudência até mesmo em termos de estratégia comercial -, os órgãos
governamentais brasileiros, até há pouco
francamente favoráveis (com exceção do Ministério do Meio Ambiente) aos
transgênicos.

Washington Novaes é jornalista. E-mail: novaes@internetional.com.br


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