04/09/2008
- 08h24
Vacina antigripe não salva idoso, diz estudo
CLAUDIO ANGELO
editor de Ciência da Folha de S.Paulo
Vacinar idosos contra a gripe pode não ser uma forma eficiente de
prevenir pneumonia e morte, afinal. Dois estudos independentes publicados
nas últimas semanas sugerem que o benefício da imunização
que vem sendo observado nos pacientes é resultado de outros fatores
--e não da vacina em si.
Os trabalhos, um americano e um canadense, foram os primeiros a avaliar
o histórico de pacientes vacinados e não vacinados que deram
entrada em hospitais com pneumonia. Em idosos, esse mal geralmente evolui
a partir da gripe.
Ambos concluem que os idosos vacinados de fato adoecem e morrem menos.
No entanto, esses pacientes também têm melhor nível
socioeconômico e educacional --portanto, tendem a uma vida mais saudável.
Os novos resultados adicionam polêmica a um campo até agora
incontroverso das políticas de saúde pública. Há
pelo menos 15 anos a vacinação contra a gripe é amplamente
recomendada para idosos, com base em uma série de estudos que mostravam
uma redução na mortalidade dos vacinados.
Alguns países, como o Brasil, têm programas de vacinação
gratuita. Só o Brasil gastou em 2006 R$ 118,6 milhões na
compra de 18,6 milhões de doses da vacina. Em sua página
na internet, o Ministério da Saúde faz coro: "Estimativas
de estudos internacionais indicam que a vacina contra a gripe provoca redução
da mortalidade em até 50% entre a população idosa".
O problema é que, até agora, as pesquisas que mostram
benefício na imunização foram baseadas apenas em observações
de pacientes, sem nenhum controle de outros fatores.
"Nós estamos numa caverna escura e não sabemos ainda o
que acontece lá dentro", disse à Folha o epidemiologista
Sumit Majumdar, da Escola de Saúde Pública da Universidade
de Alberta, no Canadá.
Na última edição do periódico "American
Journal of Respiratory and Critical Care Medicine", Majumdar e colegas
começaram a iluminar a caverna.
Para testar se o benefício da vacina era real, o grupo canadense
resolveu tentar responder à seguinte pergunta: qual é o efeito
da vacina de gripe sobre a mortalidade de idosos no verão, época
do ano em que não há vírus influenza circulando entre
a população?
Usuário saudável
O estudo acompanhou de 2000 a 2002 um conjunto de 704 idosos internados
no sistema hospitalar de Alberta com pneumonia. Metade dos pacientes havia
recebido a vacina no inverno anterior, metade não. Mesmo sem exposição
ao vírus, 8% dos vacinados morreram contra 15% dos não vacinados.
Uma redução na mortalidade de 51%. Ou seja, o benefício
aparece mesmo sem o vírus.
Os pacientes selecionados para o estudo também eram avaliados
quanto a condições prévias de saúde e alguns
hábitos -se andavam sozinhos ou se fumavam, por exemplo. No total,
36 variáveis que poderiam afetar a saúde foram consideradas.
Quando os resultados do estudo foram reavaliados à luz dessas diferenças,
a equipe constatou que o real efeito protetor era desprezível.
"O que nós descobrimos é que as pessoas que se vacinam
são mais ricas e mais instruídas. Quando você soma
isso tudo, não há um grande benefício", disse Majumdar.
"Não estamos dizendo que a vacina mata as pessoas, mas que nós
temos exagerado enormemente seus benefícios."
O outro estudo, conduzido por um grupo da Universidade de Washington
(EUA) e publicado em agosto no periódico "The Lancet", chegou à
mesma conclusão ao tentar medir o efeito da imunização
na redução de casos de pneumonia num grupo de 1.173 pacientes.
"Depois de ajustarmos para a presença e severidade de comorbidades
[outras doenças] (...) a vacina contra influenza não foi
associada a risco reduzido", afirmam os médicos, liderados por Michael
L. Jackson.
Majumdar diz que os programas de vacinação são
necessários, mas insuficientes. E que a única maneira de
saber qual é o real benefício da vacina é conduzir
estudos clínicos, algo que os governos se recusam a fazer por razões
éticas -já que nesse tipo de estudo alguns voluntários
não recebem a droga, para comparar sua eficiência. "Todo mundo
sempre achou que o benefício era tão evidente que ninguém
poderia negar a vacina a um grupo", diz Majumdar.
O Ministério da Saúde, procurado pela Folha, disse
estar analisando a validade do estudo canadense.