Embora a mensagem que te repasso não seja de "clínica",
mas fala de um assunto de vital importância para nossa saúde,
que se agrava a cada dia.
www.abradecel.org.br
http://www.sindipetro.org.br/101/b1102/s-1102p4.htm
Por trás de um mercado que movimenta trilhões de dólares
em todo o mundo existe uma discussão abafada pelas corporações
de mídia: as conseqüências da radiação
emitida pelos telefones celulares e suas antenas.
Marcelo Salles
ara
fomentar o debate, a Câmara dos Deputados realizou o seminário
internacional “Efeitos da Radiação Eletromagnética
sobre a Saúde e o Meio Ambiente”, no último dia 18 de abril.
Participaram pesquisadores brasileiros e estrangeiros, além de deputados
e representantes de órgãos públicos e privados do
setor.
Na ocasião, foram apresentados resultados contraditórios.
Para Renato Sabbatini, por exemplo, ainda não há nenhuma
evidência científica de que as radiações eletromagnéticas
causem danos à saúde da população. “A conclusão
geral da ONU é que ainda não se observaram efeitos significativos”,
disse o professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade
Estadual de Campinas.
Por
outro lado, o professor Álvaro
Augusto de Salles afirma que a exposição, mesmo a níveis
mais baixos que os considerados seguros por organismos internacionais,
pode causar câncer. “Entre os efeitos estão as quebras simples
e duplas das cadeias de DNA, o que pode justificar o aparecimento de tumores
malignos, ou seja, câncer. Isto já havia sido demonstrado
há vários anos, em níveis de exposição
substancialmente abaixo dos limites estabelecidos pela Comissão
Internacional para Proteção contra Radiações
Não-Ionizantes (ICNIRP, na sigla em inglês)”, disse o pesquisador
do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS).
Estudos confirmam - O ICNIRP – órgão usado como
referência no Brasil – considera somente exposições
de curta duração, os chamados efeitos agudos ou puramente
térmicos. Não são considerados, portanto, os efeitos
de longos tempos de exposição, como atualmente muitas pessoas
podem estar sujeitas. Nesse sentido, o Projeto Interphone, coordenado pela
OMS (Organização Mundial de Saúde), já apresentou
alguns resultados. Em períodos
iguais ou maiores que dez anos de uso de telefone celular, foi detectado
um aumento substancial no desenvolvimento de tumores cerebrais no mesmo
lado da cabeça que o aparelho é geralmente utilizado, entre
os usuários que falam 30 minutos ou mais por dia.
Além da exposição à radiação,
o pesquisador da UFRGS assegura que as atuais antenas dos aparelhos, do
tipo “monopolo”, são inadequadas para o uso. Por apresentarem diagrama
de irradiação no plano horizontal praticamente simétrico
em torno delas mesmas, a maior parte da energia irradiada é absorvida
na cabeça e uma parcela menor de potência segue em direção
à estação com a qual está se comunicando. “Uma
alternativa eficaz para contornar esse problema é o uso de antenas
planares de moderada diretividade. Elas emitem mais radiação
no sentido oposto à cabeça, melhorando a qualidade da comunicação
e reduzindo os riscos à saúde dos usuários, além
de seu custo de produção ser baixo”, ressaltou Álvaro
Augusto em seminário apresentado no Ministério Público
de São Paulo, em 2004.
Pesquisas internacionais - Outros dois estudos relacionaram o
aumento da incidência de câncer com a exposição
à radiação. Em
Naila, na Alemanha, foi detectado aumento de três vezes na
taxa de incidência de câncer entre as pessoas que habitavam
num raio de até 400 metros em torno de uma estação
radiobase (antena), em comparação com os que habitavam além
desse perímetro, na mesma cidade. O mesmo ocorreu em
Israel, na cidade de Natanya. Lá, houve um aumento da incidência
de câncer de 4,15 vezes entre os que moravam num raio de até
350 metros de uma antena, em comparação aos que moravam além
dessa distância.
“Outras pesquisas epidemiológicas
mostram aumento significativo de taxas de câncer entre pessoas que
habitam próximas às Estações Transmissoras
de Telecomunicações. É importante ressaltar
que os níveis de radiação medidos nesses estudos foram
sempre inferiores aos limites do ICNIRP. Além disso, são
pesquisas cobrindo períodos iguais ou maiores que dez anos, ao contrário
da maior parte das pesquisas que afirmam que não existe risco”,
diz Álvaro Augusto Salles. Ou seja, há estudos que comprovam
sérios danos à saúde mesmo que as pessoas sejam expostas
a níveis mais baixos do que aqueles praticados no Brasil.
O professor da UFRGS ressaltou ainda que as únicas dúvidas
que persistem são em relação aos mecanismos de atuação
das ondas eletromagnéticas nessas faixas de freqüências
nos tecidos biológicos. “Entretanto, ainda que estes mecanismos
de atuação não sejam perfeitamente conhecidos, os
resultados de danos celulares já foram repetidamente demonstrados
em publicações de reconhecida reputação científica”,
disse, para depois completar: “A classe médica sabe muito bem que
essa exposição pode causar quebras simples e duplas das cadeias
de DNA e alterar o funcionamento da barreira hemato-encefálica.
Isto pode causar, além de câncer, diferentes efeitos no sistema
nervoso central, como sintomas de convulsão, Parkinson e Alzheimer”,
disse.
O professor Francisco de Assis
Tejo, da Universidade Federal de Campina Grande, apresentou resultados
do Projeto Reflex. Trata-se de um estudo que reuniu sete países,
12 dos melhores laboratórios relacionados a essa questão,
e teve seu relatório divulgado em 2004. O resultado: sim, a exposição
à radiação emitida por telefones celulares pode alterar
o DNA e os fibroblastos, mesmo quando o campo magnético ocorre em
níveis menores do que os permitidos pelo ICNIRP. Francisco Tejo
afirmou ainda que a exposição a esse tipo de onda reduz em
cerca de 40% a produção de melatonina. Essa substância
é produzida no cérebro e tem a função de eliminar
células defeituosas, com atuação destacada no combate
ao câncer de mama e próstata.
Projeto libera alto nível de radiação - Diante
dessas preocupações, o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ)
propôs o Projeto de Lei 2.576/00, que busca regulamentar a instalação
de fontes emissoras de radiação eletromagnética com
campo superior a 35 volts por metro. O projeto teve parecer favorável
do relator e presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia,
Informática e Comunicação da Câmara, deputado
Júlio Semeghini (PSDB-SP), que apresentou um substitutivo que estabelece
que 5% dos recursos do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico
das Telecomunicações sejam destinados à pesquisa sobre
a exposição humana a campos de radiofreqüência
e que a Agência Nacional de Telecomunicações seja a
responsável por fiscalizar a aplicação das novas regras.
Embora o setor precise ser regulamentado com urgência, é
necessário ressaltar que os níveis de radiação
permitidos pelo projeto Gabeira/Semeguini são extremamente elevados.
Em Porto Alegre, por exemplo, a legislação determina um campo
máximo de 6 volts por metro, mesmo índice verificado na Suíça,
sem que isso represente prejuízo à qualidade da comunicação.
Na França, um Projeto de Lei quer fixar esse índice em 0,6
volts por metro, valor já praticado em Salzburg, na Áustria.
Em Porto Alegre, houve reação das corporações
ligadas ao setor, pois quanto maior a potência das antenas, menor
será a necessidade de investimento na construção de
novas estações. Mas a questão aqui é definir
o que deve ser prioridade: a saúde pública ou os lucros privados?
No Brasil, salvo raras exceções,
o cidadão comum está absolutamente desprotegido. Algumas
empresas já foram judicialmente proibidas de instalar antenas em
alguns municípios, sobretudo quando os moradores do local se organizam
e recorrem ao MP. Mas, de maneira geral, prevalece o poder econômico
das corporações de telefonia celular, que se valem da negligência
dos órgãos de fiscalização (sobretudo a Anatel) e
pagam cerca de R$ 2 mil mensais para o dono do terreno. Muitas vezes, ele
aluga o espaço sem saber o risco que está correndo.
Rio e São Paulo em perigo - Robson
Spinelli, físico e mestre em Ciência Ambiental (USP), trabalha
como perito do Ministério Público do Rio de Janeiro e faz
um alerta: mesmo nas maiores capitais do país as pessoas
estão sendo expostas a graves riscos. “Aqui no Rio, na av. Atlântica,
há antenas instaladas em todos os postos BR. Na av. Nossa Senhora
de Copacabana e na Barata Ribeiro também, nos terraços dos
prédios, assim como no Largo da Carioca. E algumas antenas se parecem
com lâmpadas ou têm outros formatos para não chamar
a atenção”, diz o especialista.
Em São Paulo, Robson chegou a medir um campo absurdamente elevado
próximo à antena de um aparelho de telefone celular: 190
volts/metro. Na av. Paulista, na região da Faculdade Cásper
Líbero, a medição no chão apontou 40 volts/metro.
“Isso significa que todos os aparelhos dos hospitais da região estão
comprometidos. Já aconteceu de um médico pegar um estetoscópio
e ouvir a programação de uma rádio”.
A situação é ainda
mais grave quando se trata de crianças e adolescentes. Em
razão do diâmetro da caixa craniana, esse segmento da população
é mais vulnerável. Enquanto um adulto tem 20% da área
do cérebro exposta, crianças e adolescentes chegam a ter
60%. “Crianças e adolescentes não deveriam usar celular.
Mas a gente vê na mídia justamente o contrário”, diz
Robson Spinelli. Enquanto o setor cresce 15% ao ano, a faixa de usuários
entre 7 e 13 anos cresce 33%.
Corporações influenciam pesquisas - Calcula-se
que 70% das pesquisas que relacionam a radiação de antenas
e telefones celulares aos danos à saúde sejam financiadas
pelas corporações do setor. Um estudo realizado pelo Instituto
Nacional de Saúde dos EUA e divulgado em setembro do ano passado
analisou 59 pesquisas sobre os efeitos da radiação eletromagnética
sobre a saúde humana. Resultado: “Estudos financiados exclusivamente
por indústrias de telecomunicações são menos
propensos a mostrar os efeitos da exposição [à radiação]”.
Em outro trecho, temos que “os patrocinadores podem influenciar a apresentação
do estudo, a natureza da exposição [à radiação]
e o tipo de dano que será divulgado”.
Este silêncio suscita desconfiança, sobretudo devido ao
precedente aberto pela indústria de tabaco. Até a década
de 90, existiam centenas de pesquisas que “comprovavam” que o cigarro não
fazia mal à saúde. Diretores de corporações
desse setor chegaram a jurar, perante o Congresso dos EUA, que não
existiam estudos conclusivos sobre os danos causados pela nicotina e outras
substâncias. Hoje se sabe que eles mentiram. E que pressionaram durante
anos órgãos públicos e privados para garantir os lucros
crescentes, mesmo que isso significasse a morte de milhares de pessoas.
A história parece se repetir com as corporações
de telefonia celular. Há um caso que ilustra com muita propriedade
uma das formas de atuação das corporações de
telefonia celular. Em 2002, dois pesquisadores estadunidenses, John D.
Boice e Joseph K. McLaughlin, haviam sido contratados pela Autoridade de
Proteção contra Radiação da Suécia para
revisarem alguns estudos já publicados sobre a relação
entre o uso de telefones celulares e o risco de câncer. Os dois pesquisadores
pertenciam a uma companhia privada, o Instituto Internacional de Epidemiologia
(IEI, na sigla em inglês). Depois foi revelado que o IEI estava envolvido
na defesa da Motorola Inc. em um processo judicial justamente sobre a relação
de telefones celulares e risco de câncer, o que fora omitido no momento
da contratação.
Bilhões de pessoas no mundo inteiro utilizam telefones celulares.
Cerca de 60% desse mercado está nos países emergentes. Só
no Brasil são 101 milhões de usuários, segundo a Anatel.
Os conteúdos (músicas, jogos, filmes, etc.) transmitidos
pela telefonia móvel movimentaram US$ 19 bilhões no mundo
inteiro, em 2006.