A água consumida na Região Metropolitana
de Campinas (RMC), onde vivem cerca de 2,5 milhões de pessoas, contém
vários tipos de compostos derivados de fármacos, hormônios
sexuais e produtos industriais. Algumas destas substâncias são
classificadas como “interferentes endócrinos”. Isso significa que,
quando ingeridas em grandes concentrações ou por tempo prolongado,
podem interferir no funcionamento das glândulas de espécies
animais, incluindo os seres humanos. A constatação faz parte
da tese de doutorado defendida recentemente pela pesquisadora Gislaine
Ghiselli, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, sob orientação
do professor Wilson de Figueiredo Jardim.
Compostos apresentam concentração muito acima
do limite
Intitulado “Avaliação da Qualidade das Águas Destinadas
ao Abastecimento Público na Região de Campinas: Ocorrência
e Determinação dos Interferentes Endócrinos (IE) e
Produtos Farmacêuticos e de Higiene Pessoal (PFHP)”, o estudo coletou
durante quatro anos amostras de água bruta e água potável
oriundas da Sub-Bacia do Rio Atibaia, principal manancial utilizado para
o abastecimento público da região. Durante esse período,
foram monitorados 21 compostos. Entre estes compostos, seis são
hormônios sexuais, quatro são esteróides derivados
do colesterol, cinco são classificados como produtos farmacêuticos
e seis têm origem industrial. A pesquisa revelou a presença
das seguintes substâncias na água potável distribuída
à população: dietilftalato, dibutilftalato, cafeína,
bisfenol A, estradiol, etinilestradiol, progesterona e colesterol. A princípio,
segundo a autora da pesquisa, estes compostos não deveriam estar
presentes na água consumida pela população. “Alguns
foram encontrados numa concentração até mil vezes
maior que em países da Europa”, relata Gislaine. É o caso,
por exemplo, da cafeína, presente em produtos alimentícios
e farmacêuticos. Segundo o estudo, esta substância apresentou
uma concentração média na água potável
de 3,3 micrograma por litro (µg/L). Para o colesterol, a média
obtida na água potável foi de 2,4 µg/L. Outros compostos
também chamaram a atenção, como a progesterona (1,5
µg/L), estradiol (2,4 µg/L) e etinilestradiol (1,6 µg/L),
hormônios sexuais femininos. Considerando-se a média de 1
µg/L de hormônios femininos na água potável,
ao beber dois litros de água por dia uma pessoa estaria ingerindo
60 µg destes compostos por mês. Para a coleta de água
potável foram selecionados dez bairros em Campinas, abrangendo as
regiões Norte, Sul, Leste, Oeste e Central. “Os compostos detectados
indicam que os tratamentos empregados nas estações de tratamento
de esgoto da RMC não estão sendo eficientes para a destruição
destes interferentes endócrinos”, diz Gislaine. “Conseqüentemente,
estes hormônios são transportados para as águas superficiais,
através do lançamento do esgoto tratado, e chegam na água
potável porque também são resistentes aos tratamentos
empregados nas estações de tratamento de água”, completa.
Águas brutas
– As análises das águas brutas também revelaram
uma situação preocupante. O Ribeirão Anhumas representa
o caso mais gritante de poluição, com concentrações
que atingem 106 µg/L para cafeína, 301 µg/L para colesterol
e 41 µg/L para coprostanol. “No caso da cafeína, por exemplo,
o normal em países desenvolvidos como a Alemanha, é de no
máximo 1 µg/L”, compara Jardim. No Atibaia, as amostras revelaram
concentrações significativas do fármaco diclofenaco
(5 µg/L) e dos hormônios estradiol (3 µg/L), etinilestradiol
(1,7 µg/L) e progesterona (1,4 µg/L). Para a avaliação
das águas brutas foram selecionados cinco pontos de monitoramento:
três no Atibaia, um no Ribeirão Anhumas e um no Ribeirão
Pinheiros.
Um dos pontos de coleta no Atibaia está no distrito de Sousas,
exatamente no local de captação de água utilizado
pela Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S/A (Sanasa)
para o abastecimento público, representando a água bruta
que abastece 95% da população campineira. Tantos os hormônios
quanto os fármacos são excretados pela urina ou fezes, chegando
aos rios por meio da rede de esgoto. Segundo Gislaine, os fármacos
detectados são muito utilizados como analgésicos, antiinflamatórios
e antitérmicos. “Diclofenaco, por exemplo, é um poderoso
agente não-esteróide usado no combate à febre e para
o alívio de dores em geral, como antigripais e no tratamento de
reumatismo”, explica a pesquisadora. A cafeína é uma das
substâncias mais consumidas no mundo e pode ser encontrada em diversos
produtos como os alimentícios (café, chá, erva-mate,
pó de guaraná, bebidas como os refrigerantes a base de cola,
condimentos, etc.), tabaco, medicamentos, dentre outros. Além de
fármacos e hormônios, a pesquisa também identificou
a presença de substâncias resultantes da atividade industrial,
chamadas de antrópicas. Entre elas, o destaque fica por conta dos
ftalatos. Derivados do ácido ftálico, são empregados
basicamente como plastificantes, bem como na fabricação de
tintas, adesivos, papelão, lubrificantes e fragrâncias. Têm
sido utilizados há mais de 40 anos. Segundo Gislaine, ftalatos podem
ser introduzidos no ambiente através da lixiviação,
sobretudo dos plastificantes utilizados na fabricação de
plásticos de uso comum. Entre os poluentes avaliados, tanto os antrópicos
quanto os hormônios e fármacos, há substâncias
consideradas interferentes endócrinos.
O interferente
– A ciência descreve um interferente endócrino
como sendo uma substância ou mistura química exógena
que altera uma ou mais funções do sistema endócrino,
constituído por diversas glândulas. Podem ser naturais ou
sintéticos. Os hormônios naturais, que incluem o estrogênio,
a progesterona e a testosterona, estão presentes no corpo humano
e nos animais. Já os compostos sintéticos incluem os hormônios
idênticos aos naturais, fabricados pelo homem e utilizados como contraceptivos
orais ou aditivos na alimentação animal, e os xenoestrogênios,
produzidos para a utilização nas indústrias, na agricultura
e para os bens de consumo. Estão incluídos nesta categoria
os pesticidas e aditivos plásticos.De acordo com Gislaine Ghiselli,
a maioria dos estudos ecotoxicológicos realizados até o momento
mostram que as glândulas mais afetadas pelos interferentes endócrinos
estão relacionadas aos sistemas reprodutivos masculino (testículos)
e feminino (ovários). “Evidências observadas em moluscos,
crustáceos, peixes, répteis, pássaros e alguns mamíferos
têm sugerido que possíveis alterações de saúde
humana envolvendo o sistema reprodutivo, tais como o câncer de mama
e de testículo, podem estar relacionadas à exposição
a estas substâncias”, diz Gislaine.A pesquisadora explica que os
interferentes endócrinos podem agir pelo menos de três formas:
imitando a ação de um hormônio produzido naturalmente
pelo organismo, como o estrogênio ou a testosterona, desencadeando
deste modo reações químicas semelhantes no corpo;
bloqueando os receptores nas células que recebem os hormônios,
impedindo assim a ação dos hormônios naturais; e/ou
afetando a síntese, o transporte, o metabolismo e a excreção
dos hormônios naturais no organismo.
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Sem alarmismo
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| Apesar da identificação
de interferentes endócrinos na água potável, os pesquisadores
são cautelosos ao avaliar as possíveis conseqüências
para a população. “A simples presença de um determinado
interferente endócrino no meio ambiente não significa, necessariamente,
que existe um risco a ele associado”, pondera Gislaine Ghiselli. “Embora
já se saiba que algumas destas substâncias, em doses elevadas,
interferem no funcionamento das glândulas, ainda não há
estudos sobre os efeitos da exposição crônica”, acrescenta
o professor Wilson Jardim. Segundo eles, o objetivo do estudo não
é fazer alarmismo, e sim apresentar um diagnóstico da água
consumida na região. Atualmente, a Sanasa atende com água
potável encanada 98% da população urbana de Campinas,
através de 5 estações de tratamento. Quanto ao sistema
de esgotamento sanitário, a Sanasa atende atualmente 86% da população
urbana de Campinas com coleta de 200 mil ligações. “Entretanto,
o grande desafio é o tratamento dos esgotos”, alerta Jardim. Até
o ano 2000, praticamente todo o esgoto coletado era lançado sem
tratamento nos corpos d’água da região. Apenas em 2001 é
que investimentos nesta área começaram a ser intensificados,
com a criação do Programa Nacional de Despoluição
de Bacias Hidrográficas. Em janeiro de 2001, segundo o estudo apresentado
por Gislaine, a cidade de Campinas tratava somente 5% de seus esgotos domésticos
e, sozinha, respondia por metade do esgoto não tratado entre os
19 municípios da Região Metropolitana. Novos investimentos
elevaram esta marca para 34%. O Plano Diretor de Esgotos de Campinas prevê
o tratamento de 90% dos esgotos domésticos da cidade até
2008. |