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Poliomiosite/Dermatomiosite
Olá Zina,
você escreveu:
>A Bíblia cita algo a respeito de doenças hereditárias?
>Manifestou-se em mim uma doença chamada Dermatomiosite e os médicos ainda não souberam me explicar o por quê dessa manisfetação.
A dermatomiosite é uma das possíveis consequências do desrespeito às Leis Divinas, pois vejo que muitas predisposições genéticas chegam a não se manifestar quando estamos relativamente adequados ao plano divino, especialmente nos aspectos alimentares.
Atenciosamente
Luiz Meira
Envio este texto para lembrar alguns conceitos básicos.
Dra. Vilma Takayasu
1 Conceito
O complexo Polimiosite/Dermatomiosite representa uma entidadeinflamatória muscular pertencente a familia das Doenças Difusas do Tecido Conectivo (DDTC). Quando o comprometimento se restringe ao sistema muscular é conhecida como Polimiosite (PM). Quando associada a rash cutâneo característico define a chamada Dermatomiosite (DM).
2 Dados Epidemiológicos
Não se tem em nosso meio dados epidemiológicos DM/PM. É mais rara que a Artrite Reumatóide e o Lupus Eritematoso Sistêmico. Estatísticas americanas sugerem cerca de 5 casos novos por milhão de habitantes/ano. Dentre as DDTC da infância tem incidência inferior apenas à doença reumatóide juvenil.
Considerando como grupo, a DM/PM é mais frequente no sexo feminino numa proporção de 3 mulheres: 1 homem, esta predominância não ocorre na miosite associada a neoplasia. Em relação à faixa etária, pode ocorrer em qualquer idade, porém, apresenta dois picos de incidência: um na infância e outro ao redor da quinta década de vida constituindo as formas da infância e do adulto.
3 Quadro Clínico
O aspecto clínico fundamental é a fraqueza muscular proximal e simétrica envolvendo as cinturas pélvica e escapular, assim como, a musculatura da região anterior do pescoço e flexores do tronco. O início é insidioso e o paciente queixa-se de dificuldade para subir e descer escadas, levantar-se quando em posição supina ou sentada (levantar miopático) além de dificuldade de elevar as mãos acima da cabeça. Em casos graves a fraqueza pode generalizar-se restringindo o paciente ao leito. A disfagia está presente em cerca de 10 a 15% dos casos e é decorrente do envolvimento da musculatura estriada da faringe e esôfago superior. Quando presente predispõe a pneumonia aspirativa que representa uma das principais causas de óbito.
O acometimento cutâneo ocorre em 1/3 dos casos. Achados característicos: heliotropo = lesão eritêmato violáceo periorbitária e sinal de Gottron = lesões eritematosas, levemente descamativas localizadas em faces dorsais de MCFs, cotovelos, joelhos e tornozelos. Manifestações frequentes e inespecíficas incluem: rash em tronco e face, alterações ungueais, fotossensibilidade e vasculite.
Febre, queda do estado geral, artralgias e Raynaud podem ocorrer. O comprometimento pulmonar representa o principal acometimento sistêmico. Pode ocorrer pneumonia aspirativa, hipoventilação secundária a fraqueza muscular, infecções oportunistas, além de, comprometimento alvéolo-intersticial que ocorre em 5 - 10% dos casos e pode em alguns casos evoluir com prognóstico reservado. Em alguns casos ocorre alterações cardiológicas (distúrbios de condução, arritmias, ICC) e alterações gastro-intestinais (reflexo e alterações de motilidade).
4 Classificação (Proposta por Bohan e Peter - 1875)
| Grupo 1 |
Polimiosite idiopática primária |
| Grupo 2 |
Dermatomiosite idiopática primária |
| Grupo 3 |
Dermatomiosite (ou Polimiosite) associada a neoplasia |
| Grupo 4 |
Dermatomiosite (ou Polimiosite) da infância |
| Grupo 5 |
Dermatomiosite (ou Polimiosite) associada a outra DDTC |
Em relação aos dois primeiros grupos valem as considerações apresentadas nos aspectos clínicos.
Em relação ao grupo 3, sabe-se que adultos portadores de DM/PM podem "esconder" uma neoplasia maligna. A incidência desta patologia chega a ser de 5 a 10 vezes superior a da população em geral, o que não ocorre na DM da infância. A DM/PM pode anteceder o aparecimento da neoplasia em até dois anos, sendo que em apenas um terço dos casos se faz o diagnóstico de neoplasia na exploração inicial. Neste grupo os quadros de DM predominam sobre os de PM. Os tumores mais comuns são: os de pulmão, mama, ovário, próstata, cólon e estômago. A retirada da neoplasia proporciona por vêzes involução do quadro muscular.
Grupo 4 (Infância). Nesta faixa etária a DM predomina sobre a PM na razão 2:1; distingue-se dos demais grupos por apresentar vasculite importante que pode levar a complicações fatais e por causar calcificações intensas no tecido subcutâneo e muscular. De modo geral, entretanto, esse grupo tem um prognóstico mais favorável do que a forma do adulto.
Grupo 5 (Associação com outras DDTC). As associações mais frequentes são com a Síndrome de Sjögren, Esclerose Sistêmica Progressiva, Lupus Eritematoso Sistêmico e mais raramente Doença Reumatóide. O quadro clínico e o prognóstico resultam da sobreposição das patologias.
5 HISTOPATOLOGIA
Os achados principais incluem:
- Degeneração e regeneração das fibras musculares.
- Necrose parcial ou total das fibras musculares.
- Fagocitose por macrófagos de tecido necrótico.
- Infiltrado inflamatório linfomonuclear entre as fibras e ao redor dos vasos.
- Na infância pode haver vasculite necrotizante, principalmente à nível de alças intestinais.
- Na pele encontramos edema e vacuolização basal. Não se encontram depósitos de imuneglobulinas na grande maioria dos casos.
Deve-se ressaltar que estes achados não são patognomônicos de DM/PM.
6 EXAMES COMPLEMENTARES
Sendo doença inflamatória, evolui na fase aguda com provas de atividade alteradas. 50 a 90% dos pacientes podem apresentar fatores antinucleares no soro. Entre os auto-anticorpos circulantes destacamos: anti-Mi ocorre em até 60% das DM e pequena proporção de PM isolada. A-Mi-1 é inespecífico e a-Mi-2 é específico para miopatia inflamatória e é mais encontrado em DM. a-PM/Scl (ou a-PM-1) ocorre nas associações de PM com Esclerose Sistêmica Progressiva. Em 30 a 50% das PM encontramos a-Jo-1, cuja presença está associada com fibrose pulmonar intersticial. Ocorre em frequência menor na DM. Outros auto-anticorpos estão presentes numa pequena proporção de doentes, porém não são usados rotineiramente no diagnóstico e seguimento dos portadores de DM/PM.
Três exames revestem-se de especial importância no diagnóstico da DM/PM.
6.1 Enzimas musculares:
A destrução de fibras musculares libera enzimas intracelulares que podem ser dosados no soro: Transaminase glutâmico oxalacético (TGO), Creatinofosfoquinase (CPK), Desidrogenase lática (DHL) e Aldolase. A CPK e aldolase são mais específicas para o tecido muscular. Os níveis séricos apresentam boa associação com o grau de atividade da doença revelando importância não só diagnóstica mas também quando ao acompanhamento evolutivo.
Devemos considerar que 1 a 5% dos casos não apresentam elevação de CPK ou qualquer outra enzima.
6.2 Eletromiografia (EMG):
Permite diferenciar alterações primárias do musculo daquelas secundárias à patologia do sistema nervoso central ou periférico. Os achados mais frequentes são numerosos potenciais de fibrilação, ondas positivas em repouso e potenciais polifásicos. Destacam-se ainda que os potenciais tem menor amplitude e duração. Também aqui os achados não são patognomônicos, poddendo ocorrer em outras patologias inflamatórias.
6.3 Biópsia muscular:
Revelará alterações histopatológicas já descritas. Prefere-se músculo deltóide e o quadríceps.
7 Dignóstico
O diagnóstico de DM/PM é fundamentado em achados clínicos compatíveis associado a exames complementares (enzimas, EMG, biópsia). Porém para estudos populacionais e execução de trabalhos científicos, é necessária a aplicação de critérios diagnósticos visando uniformidade das populações estudadas. Os critérios mais utilizados são os propostos por Bohan e Peter (1975) e modificados por Hudgeon e Peter (1984):
- Fraquezza muscular proximal com/sem quadro cutâneo característico
- Aumento de CPK
- EMG com alterações compatíveis
- BX muscular com evidência de necrose e inflamação
| Considera-se: |
Diagnóstico definido = 4 critérios |
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Diagnóstico provável = 3 critérios |
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Diagnóstico possível = 2 critérios |
8 Dignóstico Diferencial
Afecção muscular semelhante à PM pode ser causada por uma série de patologias, entre elas: triquinose, esquistossomose e toxoplasmose, rubéola e influenza, sarcoidose, hiper e hipotireoidismo, síndrome de Cushing e intoxicação por drogas como álcool e clofibrate. Quadros lentamente progressivos com história familiar e aumento de aumento de panturrilha sugerem distrofia muscular. Acometimento de músculos da mínima e melhora com administração de inibidores de acetilcolinesterase surgem Miastenia gravis. O exame neurológico e a eletromiografia permitem a distinção com os quadros primariamente neurológicos.
Para que se tenha uma visão crítica da complexidade do diagnóstico diferencial nesta patologia, apresentamos o seguinte quadro:
MIOPATIAS
- Inflamatórias
a. Indiopáticas - Complexo DM/PM
b. Miosite com corpo de inclusão
c. Miosite secundária a agentes infecciosos:
- viral (influenza, coxsackievirus, HIV)
- bacteriana
- parasitária (ex. toxoplasmose)
- miosite da doença de Lyme
d. Miosite induzida por drogas ou toxinas
- Metabolicas (ex. deficiência de carnitina, miopatias mitocondriais)
- Endocrinas (hipotireoidismo, hipertireoidismo, insuficiência adrenal)
- Distrofias musculares
- Miopatias congenitas
- Neurotransmissão (ex. Miastenia Gravis)
- Outros (ex. amiloidose)
9 Etiopatogenia
De etiologia desconhecida, diversas evidências permitem classificá-la como auto-imune. A presença de auto-anticorpos, elevação de gamaglobulina e resposta a corticóide favorecem a colocação neste grupo.
9.1 Imunidade Celular
A análise do infiltrado inflamatório em biópsias sugere a participação da imunidade celular. Estudos imuno-histoquimicos sugerem que o infiltrado inflamatório endomisial na PM é constituído principalmente por células citotóxicas CD8 e macrófagos que esão em intimo contato com as membranas das miofibrilas determinando posterior lesão muscular. Esta predominância do mecanismo imune celular não é observada na DM, neste, o exsudato inflamatório é principalmente perivascular e perimisial, consistindo predominantemente de linfócitos B.
9.2 Imunidade Humoral
A presença na DM, de alto percentual de células B e aumento da relação CD4/CD8 reflete o estímulo "helper" de células B para secretar imuneglobulinas estabelecendo a participação da imunidade humoral.
9.3 Viral
Existem modelos animais de DM/PM desencadeados por infecções virais. Tem sido descritos casos de PM com a participação de vírus influenza, coxsackie, hepatite B, echovirus, HIV, herpes e outros.
10 Tratamento
As drogas de escolha são a prednisona ou outros corticoesteróides não fluorados. Inicia-se com doses altas (1 a 2 mg/kg), decresendo-a conforme houver melhora até que seja alcançada a dose mínima de manutenção. Drogas citostáticas podem ser empregadas em doentes com efeitos colaterias intoleráveis aos corticóides ou naqueles que não respondem a esses fármacos (as mais usadas são o methotrexate, clorambucil, azatioprina e ciclofosfamida). Alguns autores acreditam que a cloroquina tenha efeito benéfico sobre a doença. Fora da fase aguda a fisioterapia e a terapia ocupacional ocupam papel de destaque na recuperação da força muscular, correção das contraturas e readaptação do paciente a uma vida produtiva.
DERMATOPOLIMIOSITE E SUPERPOSIÇÃO COM OUTRAS DDIC
A DPM pode evoluir em associação com a síndrome de Sjögren (SS), lúpus Eritematoso Sistêmico (LES). Esclerose Sistêmico Progressiva (ESP) e mais raramente com a Doença Reumatóide (DRe).
As associações completas implicam em crtérios diagnósticos satisfeitos para ambas doenças. Lembra-se que LES e ESP podem evoluir com fraqueza muscular (miosites de baixo grau e fácil resposta a corticóide na maioria dos casos).
A terapêutica implicará no atendimento às duas doenças, respeitando-se as contra-indicações de determinadas drogas para uma delas.
Um caso particular de Superposição é a Doença Mista do Tecido Conectivo (DMTC) evolui com alguns aspectos clínicos e/ou laboratóriais de LES/DPM/ESP/DRe e SS.
As manifestações clínicas mais comuns são: Poliartrite, Esclerodactilia, Polimiosite, Fenômeno de Raynaud e Inchaso das mãos ou dos dedos isoladamente. A complicação mais temida é a pulmonarcom vasculite, hipertensão pulmonar e óbito em alguns casos.
Títulos elevados de anticorpos anti-RNP no soro constituem requisito diagnóstico.
O acometimento renal e do sistema nervoso central é raro.
A conduta terapêutica engloba corticóide em doses baixa, antinflamatórios não hormonais (tentativa inicial antes do corticóide), anti-maláricos "(controle articular e de pele). ..................... controle do Raynaud.
Os casos mais severos (como a complicação pulmonar) requerem o uso de citotósticos (cilclofosfamida ou clorambucil).
Em situações mais graves com hipertensão pulmonar severasutilizam-se pulsos endovenosos de ciclofosfamida.
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