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De:  "Luiz Meira" <luizmeira@yahoo.com>
Data:  Qua Jul 4, 2001  1:12 pm
Assunto:  Parto fora do hospital


Pré-natal e práticas humanizadas no parto são mais importantes que o local,
conclui debate promovido pela Folha e APM

Parto fora do hospital divide especialistas
AURELIANO BIANCARELLI - DA REPORTAGEM LOCAL

Se pudessem optar, as mulheres teriam seus filhos em maternidades ou em
casas de parto? No Brasil, ainda não se sabe, pois a pergunta ainda não foi
feita nem as opções foram oferecidas.
Na casa de parto, o nascimento é ajudado por uma enfermeira obstetra, e a
mãe é acompanhada por alguém escolhido por ela. Nas maternidades, a mulher
deve ser assistida por uma equipe composta por obstetra, anestesista,
neonatologista, obstetriz e auxiliar de enfermagem. Geralmente, ninguém da
família está presente.
Para encontrar uma vaga em maternidade pública, as mulheres em trabalho de
parto na periferia chegam a percorrer três hospitais. A única casa de parto
de São Paulo, a do Qualis de Sapopemba, faz dois partos por dia, quando
poderia fazer quatro. Sobram leitos.

A julgar por esse quadro, as mulheres preferem os hospitais às casas de
parto. Para boa parte dos médicos, é prova evidente de que a mãe quer
segurança. Para quem defende o parto na casa de parto, a pequena procura é
resultado de lobbies e campanhas que insistem em tratar o nascimento como um
ato médico cheio de riscos.
Foi em torno desses dois polos que girou a mesa redonda sobre o "papel e a
eficiência das casas de parto", realizado na semana passada no auditório da
Folha e promovido em parceria com a Associação Paulista de Medicina.
Participaram a professora Dulce Gualda, da Escola de Enfermagem da USP; irmã
Monique Bourget, diretora do Hospital Santa Marcelina; Aristodemo Pinotti,
chefe do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina
da USP; e Pedro Paulo Monteleone, professor-adjunto de obstetrícia da
Universidade Federal de São Paulo. O debate foi coordenado por Adib Jatene.

Não foi uma mediação neutra: o cardiologista e ex-ministro da Saúde foi um
dos incentivadores da criação da casa de parto de Sapopemba, proposta pelo
médico David Capistrano Filho, morto no ano passado. "A casa já fez 1.200
partos; apenas um bebê morreu por prolapso de cordão", disse.
O primeiro ponto discordante é justamente o risco do parto fora da
instituição hospitalar. É possível saber, com segurança, qual mulher terá um
problema na hora do nascimento? A outra questão, decorrente dessa, é se o
nascimento precisa sempre da presença médica. Monteleone, que já presidiu o
Conselho Regional de Medicina e há 40 anos faz partos, diz que sempre foi
"um severo crítico da casa de parto". "Se me convidarem para fazer um parto
numa caso de parto, eu não vou. Não tenho segurança para isso."

Um pré-natal bem feito pode indicar qual parto será normal e qual será
cesárea, ele concorda. "Mas desafio qualquer obstetra a apontar, entre os
normais, qual terá uma complicação."
O que no Brasil é apresentado como um procedimento médico de risco, no
Canadá e em alguns países da Europa é tratado como ato fisiológico que
necessita apenas da assistência de uma parteira especializada, lembra irmã
Monique. No cômputo das intercorrências, elas são dez vezes mais comuns no
meio hospitalar que nas casas de parto, diz. Junto ao Hospital Santa
Marcelina, que faz mais de 500 partos por mês, está sendo construída uma
casa de parto sem o aparato hospitalar e onde médicos serão substituídos por
obstetrizes. "Nem todas terão filhos ali, mas é importante que a mulher
tenha opções", diz a irmã.

A professora Dulce Gualda afirma que, em sua experiência como enfermeira
obstétrica, aprendeu que "quanto menos intervenção no parto, menor risco
para mãe e o bebê". Dentro do modelo hospitalar, as mulheres ainda são
submetidas a uma série de procedimentos há anos desaconselhados pela
Organização Mundial da Saúde, como a episiotomia -o corte do períneo- e o
parto em sala cirúrgica. Além do excesso de cesáreas, que significa cinco
vezes mais risco para a mãe.
Aristodemo Pinotti é contra a casa de parto. Defende a introdução nas
maternidades dos mesmos procedimentos adotados nas casas de parto, práticas
conhecidas como "parto humanizado".

A posição da Secretaria de Estado da Saúde não é por mais casas de parto.
"Somos por mais leitos de maternidade e pelo parto natural", diz o
secretário José da Silva Guedes. A casa de parto de Sapopemba, segundo ele,
foi uma solução para uma área populosa e sem leitos. "Até o ano que vem
haverá dois hospitais na região com cem leitos obstétricos."
A futura "casa de parto" Santa Marcelina será um centro de treinamento de
parto normal, preparando professores e estudantes. Muitos médicos continuam
fazendo cesárea porque nunca viram um parto natural. No Estado de São Paulo,
uma politica de incentivo reduziu as cesárea na rede pública de 48% em 98
para 31% no final do ano passado.

No debate na Folha, o parto humanizado e um pré-natal com pelo menos seis
consultas foram defendidos por todos. "A casa de parto de Sapopemba
demonstrou que é possível fazer um parto normal com obstetrizes, sem
estrutura hospitalar, em mulheres que fizeram um bom pré-natal", concluiu
Jatene. No calor das discussões, o ex-ministro lembrou que ele próprio veio
ao mundo pelas mãos de uma parteira.

http://www.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0107200127.htm Folha SP 01.07.01



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