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De:
"Luiz Meira" <luizmeira@yahoo.com>
Data: Sáb Mar 31, 2001 10:31
pm
Assunto: vaca Louca
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-----Mensagem Original-----
De: "Gabriela" <puertadelsol@telpin.com.ar>
Para: <ALT_HEP_C@yahoogroups.com>
Enviada em: terça-feira, 27 de março de 2001 00:02
Assunto: [ALT_HEP_C] La caja de Pandora
» Gazeta Mercantil 23 de março de 2001
SAÚDE
A caixa de Pandora
NOVA YORK, 23 de março - A doença da vaca louca se espalhou pelo mundo
porque ela não foi tratada como um problema científico, mas como uma questão
econômica e política. A afirmação é do dr. Thomas Pringle, uma das
principais autoridades na doença nos EUA. Segundo ele, a indústria
farmacêutica não está investindo na cura da doença, porque, como até agora
só existem 103 casos do mal equivalente em seres humanos, um remédio não
traria lucros. Ele afirma também que os governos de países com vacas
contaminadas estão tentando controlar o fluxo de informações sobre a doença
com medo de mais prejuízos no comércio de carne, e assim por diante.
Para Pringle, a decisão do Canadá de proibir a importação de carne
brasileira - mais tarde revertida - faz parte desse cenário. 'O Canadá
transformou a doença em um problema político, com o objetivo claro de obter
vantagens comerciais. As implicações desse ato são preocupantes, porque ele
abre um precedente para qualquer país atacar outro usando a vaca louca como
desculpa.'
Pringle, 55 anos, tornou-se uma autoridade em vaca louca quase por
acaso. Depois de anos dando aulas de biologia, ele recebeu uma pequena
herança familiar e decidiu montar uma fundação científica. A Sperling
Biomedical Foundation, com sede em Eugene, Oregon, nasceu com o objetivo de
pesquisar um mal chamado encefalopatia espongiforme, que acometia animais. A
princípio, Pringle estava interessado apenas em estudar a ocorrência do mal
em alces e cervos. Mas o cientista começou a se dedicar à doença da vaca
louca cinco anos atrás, quando se descobriu que humanos que ingeriram carne
contaminada estavam desenvolvendo uma variante do mal de Creutzfeldt-Jakob,
que causa perda da coordenação, demência e a morte.
Ele procurou, então, um cientista que coordenava um site sobre a
doença (www.mad-cow.org) e ofereceu sua ajuda. Como o cientista tinha outros
interesses à época, Pringle acabou assumindo o endereço eletrônico sozinho.
O site reúne artigos de imprensa e pesquisas científicas sobre o assunto,
algumas delas nunca publicadas. 'É como um superlaboratório virtual',
explica. Ele acredita que a internet poderá se tornar o meio científico do
futuro, porque não há limitação de espaço e porque ela pode colocar no ar
imediatamente uma pesquisa que demora até seis meses para ser publicada em
revistas científicas.
O trabalho de Pringle vem causando desconforto no governo americano e
na indústria de criação de gado, que, segundo ele, não parecem interessados
na divulgação de dados sobre a doença da vaca louca. O cientista afirma que
vem sofrendo uma campanha de desmoralização, com a divulgação de informações
erradas sobre sua formação científica. Atualmente, Pringle estuda os
resultados do mapeamento do código genético humano, feito pelo Projeto
Genoma. Seu interesse é descobrir como atua uma proteína chamada príon, que,
quando deformada, causa a encefalopatia espongiforme tanto em animais quanto
no homem. A seguir, leia entrevista com Pringle, feita por telefone, desde
sua fundação em Eugene:
Gazeta Mercantil - O senhor acredita que a decisão
canadense de proibir a importação de carne brasileira teve alguma base
científica?
Thomas Pringle - O Canadá claramente transformou a doença
em um problema político, para obter vantagens comerciais. Hoje, existem cem
países com algum problema relacionado à doença da vaca louca, e o Brasil não
é um deles. As implicações desse ato são preocupantes. Ele abre um
precedente para qualquer país atacar outro usando a vaca louca como
desculpa. Hoje, o Canadá só testa 18 vacas por semana, quando deveria estar
testando milhares. Ele tem problemas mais sérios que o Brasil, porque
importou carne da Inglaterra. O país não sabe o tamanho de seu problema,
então por que atacar outro país?
GZM - O senhor acredita que a Inglaterra demorou muito
tempo para reconhecer o problema?
Pringle - Não só a Inglaterra, como a Alemanha e a França
também. A Inglaterra continuou exportando carne quando já sabia do problema,
e quando já havia restringido o consumo no país. Foi uma atitude egoísta e
irresponsável, tomada para diminuir o prejuízo econômico com o problema.
Além disso, a Inglaterra só admitiu cem casos de doença da vaca louca,
quando já havia evidência de mais de 700. E adulteraram testes para que não
revelassem a contaminação.
GZM - Qual a medida mais efetiva para conter a
disseminação da doença?
Pringle - Todos os países vão ter de adotar testes em
massa para diagnosticar a doença em animais, como Alemanha, França e Espanha
vêm fazendo. Isso significa testar milhares de vacas, e incinerar os animais
onde há focos de contaminação. Provavelmente haverá casos de vaca louca em
todos os países do mundo, nem que seja 1 em 1 milhão. Então cada país vai
ter de decidir qual o nível aceitável de contaminação para saber se deve
continuar consumindo carne. O Brasil possivelmente terá um nível pequeno de
contaminação, porque não importa carne, e seu rebanho não come farinha de
ossos, o que seria a causa para o surgimento da doença.
GZM - Os países agora devem se concentrar na busca de uma
cura ou na contenção da doença?
Pringle - Eles deveriam investir mais na cura, mas a
indústria farmacêutica não está interessada nisso. Como até agora só houve
103 casos de humanos contaminados pela carne de vaca louca, não há
possibilidade de lucro imediato. Por que se preocupar com uma centena de
pessoas quando existem 100 milhões de pessoas com diabete? Mas há 35
companhias desenvolvendo testes para diagnosticar a doença, tanto em animais
quanto em humanos, porque houve milhões de pessoas expostas à contaminação.
GZM - O senhor acha que o governo e a indústria continuam
tentando encobrir o problema?
Pringle - Sim. Na Inglaterra, eles vêm sabotando
cientistas que falam a verdade sobre o problema, cortando verbas de
pesquisa, provocando demissões ou adulterando trabalhos científicos. O
grande problema na Inglaterra é que o caso se tornou uma questão de relações
públicas, em que o governo escondia as conseqüências, em vez de atacar as
causas.
GZM - Houve alguma atitude do governo ou da indústria nos
EUA contra o senhor pessoalmente?
Pringle - Sim, eles promoveram uma campanha de difamação,
por exemplo mandando informações equivocadas para a imprensa, dizendo que eu
não tinha o segundo grau completo, e assim por diante.
GZM - É possível saber qual será a magnitude do problema?
Pringle - Eu não acredito que esse será o fim da
civilização ocidental, mas acho que os ingleses abriram a caixa de Pandora.
GZM - Para um problema que vitimou cem pessoas até agora,
o mal de Creutzfeldt-Jakob vem gerando enorme paranóia. Por que ele é tão
assustador?
Pringle - A reação à doença da vaca louca de certa forma
resume a ansiedade humana com a questão da alimentação. A doença vem
confirmar muitos dos medos que temos a respeito de comida pouco saudável,
como a possibilidade de desenvolver câncer ou problemas no coração. Por
isso, as pessoas estão se sentindo culpadas pelas porcarias que comem.
GZM - O senhor acredita que haverá casos do mal de
Creutzfeldt-Jakob no Brasil também?
Pringle - Provavelmente sim, não pelo consumo de carne
brasileira, mas pelo consumo de carne durante viagens à Europa.
GZM - Se não contarmos problemas de subnutrição, o senhor
acredita que pessoas de países em desenvolvimento se alimentam mais
saudavelmente que as de países desenvolvidos?
Pringle - Sim, essa é uma ironia reveladora. As pessoas
que têm hortas ou criam galinhas no quintal comem de maneira mais saudável
do que aquelas que compram comida em supermercados ou comem em restaurantes.
As indústrias investem em comida que dê lucro, em gostos viciantes. Os
países desenvolvidos en-venenaram a própria comida.
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